• Edgar Andrade

Motivação para Aprender



Como falar sobre motivação de estudantes sem falar da motivação das professoras e professores? Como falar da motivação das professoras e professores sem falar simplesmente sobre MOTIVAÇÃO? E a definição careta do dicionário não é nada motivadora. Gosto mais do conceito de Cortella. Segundo ele, “motivação é aquilo que move, que movimenta, como um motor. É, portanto, algo interno, precisa estar dentro de nós.” Tentei então fazer um resgate no meu motor, que é meu juízo, para identificar o que me motiva. Fui tão fundo nesse exercício que lembrei de um momento da minha infância em que meu pai disse que eu não tinha ritmo enquanto tentava tocar um atabaque (ou tambor) feito de copo descartável e fita crepe. Acabei tocando na banda do colégio. Críticas e elogios podem virar potentes combustíveis para a motivação, assim como podem lascar o juízo de um adolescente. No meu caso acabei tocando atabaque, tarol, percussão, prato, lira. Na bateria fui um desastre e acabei desistindo. Também tentei tocar trompete, trombone, sax, até tuba tentei tocar e acabou virando meu instrumento preferido das orquestras de frevo. Quem me conhece de perto sabe disso, pois sempre fico perto das tubas no carnaval.


Nesse resgate já identifiquei mais de 200 ideias, projetos, apresentações, textos conceitos, enfim. Projetos para negócios, para minha casa (resina, marcenaria, fabricação artesanal de cerveja, de gin…), na minha experiência no Governo de Pernambuco, com políticas públicas, e nos negócios. Qualquer pessoa minimamente pessimista consideraria minha trajetória um fracasso. Mais de 200 projetos para vingar, sei lá, uns 20 ou 30? Ah! Antes que tenhas dúvidas considero o Fab Lab Recife como um 01 projeto nessa conta, assim como o Canal Maker. Na minha visão carrego no peito e no juízo um acúmulo de experiências, comemorações, frustrações, erros e acertos. Depois de quase 30 anos de carreira, sou o resultado de todas essas doidices.


Vou me arriscar um pouco mais nesse momento e dizer porque acredito que a MOTIVAÇÃO virou uma pauta tão importante que acabou dando nome ao evento internacional promovido pelo Instituto Ayrton Senna e que tive a honra de participar (link logo abaixo). Nos últimos 180 anos, alimentamos um modelo de sociedade baseado no sucesso, no consumo e na capacidade de acumular coisas, riquezas. Esse danado do "chegar lá" e do "ser alguém na vida" lascou tudo. O resultado é uma quantidade jamais vista de jovens sofrendo transtornos mentais, índices altíssimos de suicídio. Porque uma prova leva uma pessoa jovem a tirar a própria vida? Porque insistimos na expectativa de uma nota 10 como se ela fosse determinante pro futuro de uma pessoa? Qual a razão para continuarmos sonhando em acumular riquezas quando percebemos que esse modelo de sociedade está colapsando?


Três experiências foram determinantes na minha vida. A primeira e mais importante foi o contato que tive com políticas públicas, entre 2007 e 2010. Saí do Governo de Pernambuco depois de muito trabalho na Casa Civil e na Cultura, com dezenas de projetos escritos e dois ou três vingando. Mas saí com uma certeza que me guiaria a partir dali. Iria provar ser possível ganhar dinheiro e contribuir com políticas públicas, ajudar a construir um mundo melhor para todas as pessoas de todos os lugares.

comecei a perceber que a lógica “feicebuquiana” de negócios não era para mim.

A segunda foi o mergulho que dei no movimento de “startups” como representante da INSEED (virou KTPL) no Nordeste, um dos maiores fundos de investimentos do Brasil e minha tarefa era identificar oportunidades de negócios para esse fundo. Além de perceber que o fato das minhas ideias, projetos e negócios não darem certo, não faziam de mim um fracassado, e continuar acreditando que em algum momento acertaria, também comecei a perceber que a lógica “feicebuquiana” de negócios não era para mim. Não queria pautar minha vida no sonho de ser bilionário, de acertar um negócio que fosse escalável globalmente. Ter milhares de colaboradores, “holding”, dezenas de empresas, capital aberto, morro de medo de ficar muito rico porque todas as pessoas muito ricas que conheço se lascam demais de trabalhar e acabam sem tempo para viver. Meu sonho é morar na praia ou num pedaço de terra num sítio aqui perto de Recife. Voltar pra cá uma, no máximo duas vezes por semana, trabalhar de 4 a 6 horas por dia. Mantendo o meu trabalho e o que mais gosto de fazer que é juntar gente diferente para resolver problemas e realizar sonhos. Escrever minhas doidices por aqui, ou melhor, conversar com vocês pessoalmente. Vixe! Gosto demais de falar, de conversar, de aprender e escrever. Tudo isso é muito mais fácil e divertido que ser bilionário, não é?


Na definição de Cortella ele também diz que “é possível incentivar outra pessoa, dar estímulos.” Descobri no Fab Lab Recife a terceira experiência determinante da minha vida. Essa foi pra torá, como costumamos dizer por aqui. Através dessa rede espalhada em mais de 120 países descobri que tinha muita gente com as mesmas viagens que nós por aqui. Que tinha muita gente não só refletindo, mas botando a mão na massa para materializar futuros diferentes, que nos conectam com um novo modelo de sociedade. E de repente estávamos mergulhando na Educação, entrando nas escolas privadas. João e Oto estudando no Instituto Capibaribe, escola fundada por Paulo Freire, enquanto eu não conhecia Paulo Freire. Descobri que tudo o que a gente pensava sobre a contribuição do movimento maker para a transformação da escola passava pela essência freiriana. A construção da autonomia, da capacidade de resolver problemas e realizar sonhos. Ajudando estudantes a saber o que lhes interessa (autoconhecimento) para depois ensinar a fazer algo com os interesses descobertos (estratégia de execução e projeto de vida).


Daqui a pouco estávamos rodando experiências com estudantes de escolas técnicas de Belo Jardim, a 200 quilômetros de Recife, numa parceria com o Instituto Conceição Moura e com Baterias Moura. E mergulhamos na BNCC pra levar um susto imenso. Não é que a danada foi criada pra gente? Tudo o que a gente fazia estava conectado com a BNCC. E a Prefeitura do Recife nos chama para levar nossa metodologia para as escolas da Rede Municipal. Queremos ajudar a levar essa meninada pro Ensino Médio com outra cabeça, com a certeza de que serão capazes de construir seus caminhos sem depender de ninguém mas sempre juntando gente pois é da mistura que nasce a inovação. Em São José do Egito, no sertão pernambucano, vamos rodar uma experiência integrando escolas, negócios e cidades. Vamos tentar montar um Fab Lab por lá e em breve escreverei sobre esse movimento. E foi pela pandemia que acabamos botando toda a energia necessária para colocar no mundo nossas primeiras experiências “online”. Lembrando que Educação Online é bem diferente de EAD e arrisco apostar que em breve nossa e toda experiência na Educação será híbrida. Sem dúvida nos ajudará a chegar em muito mais pessoas. Acreditamos que só conseguiremos ajudar a mudar o Brasil através das escolas públicas e dos 82% de estudantes que estão nelas e um modelo híbrido pode ser determinante.

Esse movimento é responsável pelo resgate do óbvio.

Pautamos tudo o que fazemos na premissa filosófica mais importante do Movimento Maker: fazer é melhor que comprar. Esse movimento é responsável pelo resgate do óbvio. O Fazer é o resgate do nosso instinto mais primitivo e, ao mesmo tempo, bem-sucedido. Faça mais, compre menos. Compartilhe mais conhecimento, colabore com outras pessoas e projetos. Seja agente da transformação da sua rua, do seu bairro, do mundo.


No final das contas, acabei fazendo um passeio pela MOTIVAÇÃO do dicionário, passando pelo conceito lindo de Cortella, chegando na Motivação para Aprender. Acredito que fazemos muito bem o que Cortella sugeriu na sua definição, a gente mexe com o juízo não só da meninada mas também das professoras e professores, de gestoras e gestores, das famílias. Porque acreditamos que a MOTIVAÇÃO, além de um processo interno, é um processo contínuo que pode ser irradiado nas casas, bairros e cidades. Apostamos na Cultura Maker como indutora da mudança de comportamento, estimulando a abertura ao novo, a resiliência, a percepção de propósito. Acreditamos na construção de comunidades de inovação e ter a certeza de que estamos dando a nossa contribuição para a co-criação de um futuro melhor me faz acordar quase diariamente com animação e otimismo, mesmo nos piores momentos. E se você me perguntar o que fazer para MOTIVAR estudantes, professoras e professores. A resposta pode trazer infinitos caminhos, mas sei por onde podemos começar: ajudando essa galera a perder o medo de errar. Tenho sido repetitivo nesse ponto mas esse medo lasca tudo, gente! Ensinaram a gente que errar é errado e continuamos ensinando isso às nossas crianças. O erro é parte fundamental do processo de aprendizagem e amadurecimento. Aprender a lidar com o erro, com a frustrações, talvez seja a habilidade que mais nos conecta com o mundo real, cheio de frustrações diárias. E o que fazemos na escola? Condenamos o erro com notas. Destacamos as pessoas que tiram 10. Esse 10 não servirá pra nada no futuro! Precisamos focar no que realmente importa, ajudar professoras e professores a atuarem como articuladores da alegria. Para ajudarem estudantes a traçar caminhos para uma vida melhor, em sociedade, compartilhada, em que suas múltiplas carreiras e constante estado de aprender e ensinar conduzam essas pessoas para o objetivo mais importante de todos: ser feliz!

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